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RONALDO NO PAÍS DO CARNAVAL

Por: Gustavo Buttes

O Brasil está embasbacado com a espantosa recuperação de Ronaldo e com suas ótimas apresentações, quase garantindo, por antecipação, o título do Campeonato Paulista para o Corinthians. Tenho uma amiga canadense, em visita de trabalho ao Brasil, cuja lista de compras e presentes limita-se exclusivamente a um sem número de camisetas oficiais do “Fenômeno”. Não é somente em solo tupiniquim, portanto, que o futebol causa frisson, mas também no estrangeiro, mesmo em países sem tradição alguma no esporte bretão.

O povo por aqui ama futebol, diverte-se com a gozação de colegas de trabalho (sim, o povo tem que trabalhar!), “torra” seu dinheiro em camisas e outras parafernálias futebolísticas, e farreia. E como farreia! E isso é óbvio, pois a alegria popular por aqui não se limita ao futebol: temos também o carnaval e seus outros tantos carnavais fora de época.

O que me embasbaca, curiosamente, é o próprio fato de ver como nossa população está alheia aos acontecimentos políticos mais elementares, entregue a orgias futebolísticas ou carnais, submersa em algo semelhante à política do Pão e Circo no antigo Império Romano. Denúncias diárias de mal-uso do dinheiro público parecem não causar a indignação devida nos cidadãos. O carnaval dos políticos é permanente e extrapola qualquer esfera governamental. Do Município à União, nossos representantes estão contaminados pela luxúria e lascívia típicos em épocas de festas, esquecendo-se, porém, que o dinheiro que esbanjam e o mandato que ostentam não lhes pertencem, mas sim ao povo.

ronaldo

Em Atibaia, as denúncias contra o Executivo caem no descaso diante de uma Imprensa mais preocupada com articulações políticas e colunas sociais e de uma Câmara Municipal que não exerce sua função de fiscalização (com raras exceções) e que está ao serviço da elite municipal. As sessões realizadas ali na Casa do Povo prestam-se tão-somente à entrega de moções vazias, que congratulam membros da elite burguesa, ou então para blábláblás sem-fim sobre como resolver nada, pois é o Executivo quem manda. O voto, a cada 2 anos, é popular, porém os benefícios são elitistas. Elitistas, porque os bens públicos utilizados pela população não recebem a atenção devida. Os sistemas médico e educacional estão falidos, os transportes servem somente para levar povo pobre ao serviço e buscá-lo às 18h, o Plano Diretor é racista e segregacional, e os Conselhos Populares não representam a vontade popular, pois seus membros sequer conhecem as condições de vida miseráveis da vasta maioria da população.

Problema antigo, a falta de interesse da população pela política já foi descrito magistralmente pelo então adolescente Jorge Amado, em seu primeiro romance, O País do Carnaval. Ali, com o País à beira do golpe revolucionário de Getúlio Vargas, em 1930, a elite intelectual e política permanecia ignorante quanto aos rumos que a Nação seguiria, e o povo afundava em vícios e orgias, à semelhança do que assistimos hoje. Futebol e carnaval, 80 anos depois, parecem ser ainda as forças motrizes da nossa sociedade, enquanto políticos mal-instruídos e intencionados continuam sua farra com o nosso dinheiro, à custa de nosso voto, em um sistema democrático de fachada, como era na Política do Café-com-Leite da República Velha, ou na Política do Carnaval-com-Futebol de nossos dias. E ao Ronaldo nossa reverência, enquanto o Brasil continuará sendo sempre o “País do Futuro”, de um futuro que nunca chega, pelo menos até que a população se levante unida para acabar com o clientelismo impregnado em nossa política.

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